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Abordagens Terapêuticas para Epilepsia Refratária: “E quando nem o CBD funciona?”

  • Foto do escritor: Dr. Luís Cláudio Azevedo
    Dr. Luís Cláudio Azevedo
  • 17 de nov. de 2025
  • 8 min de leitura

 

A epilepsia refratária, especialmente a associada ao Complexo de Esclerose Tuberosa (CET), exige abordagens terapêuticas multimodais. O CET é uma condição genética ligada à desregulação da via de sinalização mTOR (alvo mecanicista da rapamicina), o que orienta o desenvolvimento de terapias direcionadas. O material a seguir integra as informações obtidas de estudos recentes, abrangendo desde inibidores da via patogênica central até novas fronteiras em canabinoides e neuroesteroides.

 

1. Terapias Direcionadas à Patogênese (Inibidores de mTOR)

O desequilíbrio na via mTOR é a base da patogênese do CET. O bloqueio dessa via visa não apenas o controle das crises, mas também um potencial efeito modificador da doença.


Everolimus

  • Mecanismo de Ação: Inibidor seletivo da serina/treonina quinase mTORC1. Sua ação anticonvulsivante está ligada à modulação da expressão de canais iônicos (aumento do Kv1.1, diminuição dos receptores AMPA) e à supressão da inflamação.

  • Estudos em CET (EXIST-3): Ensaio de fase 3, randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, em pacientes com crises focais resistentes ao tratamento associadas ao CET.

  • Doses e Resultados:

    • Doses-alvo de exposição sanguínea: 3–7 ng/mL (exposição baixa) e 9–15 ng/mL (exposição alta).

    • Taxa de resposta (50% redução nas crises): 28,2% para a exposição baixa e 40,0% para a exposição alta, em comparação com 15,1% para o placebo.

    • Conclusão: O Everolimus é uma terapia adjuvante de primeira linha comprovada, com eficácia significativa no controle de crises refratárias em pacientes com CET, reforçando o conceito de terapia direcionada.


2. Canabinoides e Compostos Endocanabinoide-like

O papel dos canabinoides na epilepsia refratária é um campo de pesquisa intensa, com compostos que demonstram eficácia comprovada, interações complexas com ASMs e agentes emergentes.


A. Canabidiol (CBD)

  • Mecanismo de Ação: Não totalmente elucidado, envolve mecanismos multi-alvo, incluindo a modulação do receptor vaniloide potencial transitório tipo 1 (TRPV1), o receptor GPR55 e vias independentes, além de interações com o sistema endocanabinoide.

  • Estudos em CET (Epidiolex): Ensaio clínico randomizado, duplo-cego e controlado por placebo (RCT) com 224 pacientes com CET.

  • Doses e Resultados:

    • Doses testadas: 25 mg/kg/dia e 50 mg/kg/dia.

    • Redução mediana na frequência de crises: 49% para 25 mg/kg/dia e 48% para 50 mg/kg/dia, versus 27% para placebo.

    • Taxa de resposta (50% redução nas crises): 33% para 25 mg/kg/dia e 40% para 50 mg/kg/dia, versus 15% para placebo.

  • Interação com Clobazam (CLB):

    • Eficácia: Meta-análises e estudos mostram que a eficácia do CBD é independente do uso concomitante de CLB, embora o efeito possa ser numericamente maior em pacientes que usam CLB.

    • Farmacocinética/Segurança: O CBD é um inibidor das enzimas do citocromo P450, principalmente a CYP2C19 e CYP3A4. A inibição da CYP2C19 resulta no aumento das concentrações plasmáticas do metabólito ativo do CLB, o Norclobazam (NCLB), o que pode aumentar a eficácia, mas também eleva o risco de efeitos adversos, como sedação e sonolência.

    • Segurança Geral: O CBD aumenta o risco de elevação dos níveis de transaminases hepáticas, um risco notavelmente maior quando coadministrado com Valproato.

Predição Farmacogenética (CBD)

  • Resposta: Polimorfismos nos genes que codificam as enzimas AOX1 (Aldeído Oxidase) e ABP1 (Diamina Oxidase), como AOX1 rs6729738 CC (Odds Ratio/OR 6.69 para 50% de redução nas crises) e ABP1 rs12539 (OR 3.96), foram associados a uma melhor resposta ao CBD.

  • Tolerabilidade: Polimorfismos em genes do citocromo P450 (CYP3A4, CYP3A5, CYP2C19) e UDP-glucuronosiltransferase (UGT2B7) foram associados a um risco aumentado de efeitos adversos (diarreia, sedação, função hepática anormal).


B. Delta-9 Tetrahidrocanabinol (THC)

  • Risco Pró-Convulsivante: O THC é o principal canabinoide psicoativo. Em populações não-epilépticas, a exposição aguda ao cannabis foi associada a um risco de convulsões.

  • Potencial Terapêutico: Em contraste com o risco geral, uma série de casos em epilepsia pediátrica resistente a medicamentos (DRE) relatou que pacientes que falharam com altas doses de CBD tiveram uma redução significativa na frequência de crises com a reintrodução ou aumento da dose de formulações com foco em THC (extratos de planta inteira). Isso levanta a hipótese do "efeito entourage", onde outros canabinoides, terpenos (como o beta-cariofileno) e compostos do extrato interagem para modular a potência anticonvulsivante e/ou o perfil de segurança.


C. Beta-Cariofileno (BCP) e Pregabalina (PGB)

  • Mecanismo de Ação do BCP: Sesquiterpeno, agonista completo e seletivo do receptor canabinoide tipo 2 (CB_2R) e ativador de PPAR-alpha/gamma (Peroxisome Proliferator-Activated Receptor). Não psicoativo.

  • Resultados Pré-clínicos:

    • Demonstrou atividade anticonvulsivante em modelos de convulsão.

    • A combinação de BCP (100mg/kg) e Pregabalina (40mg/kg) apresentou uma atividade anticonvulsivante aprimorada (sinérgica) em ratos, com aumento da latência e menor duração das crises induzidas por PTZ, além de propriedades benéficas em análises moleculares (diminuição de GFAP, c-Fos e nitrotirosina).

    • Em modelo de Status Epilepticus (SE) induzido por pilocarpina, atenuou as convulsões recorrentes de curto prazo e a ruptura da barreira hematoencefálica (BBB).


D. Canabidivarina (CBDV)

  • Mecanismo de Ação: Fitocanabinoide que interage com o receptor TRPV1.

  • Resultados Clínicos (Fase 2): Em um RCT (não-CET) para crises focais, o CBDV na dose de 1600 mg/dia não demonstrou eficácia estatisticamente superior ao placebo, apesar de ser bem tolerado.


E. Palmitoylethanolamide (PEA)

  • Mecanismo de Ação: Lipídeo endógeno (endocanabinoide-like) que atua como agonista do PPAR-alpha e modula o sistema endocanabinoide. Acredita-se que atue reduzindo a hiperexcitabilidade neuronal (via inibição de mGluR5) e a neuroinflamação (redução da atividade glial).

  • Resultados: As evidências são atualmente pré-clínicas, mas sugerem potencial antiepiléptico, anticonvulsivante e neuroprotetor, com a necessidade de ensaios em humanos.


3. ASMs Convencionais

O tratamento é frequentemente semelhante ao de pacientes sem CET, mas com considerações específicas:

Substância/Princípio Ativo

Mecanismo de Ação (Abreviado)

Contexto de Uso Principal no CET

Advertências/Resultados

Vigabatrina (VGB)

Inibidor da GABA-T

Tratamento de Primeira Linha para Espasmos Infantis (SI) no CET.

Alto risco de defeitos permanentes do campo visual (30%–40%).

Valproato (VPA)

Aumento GABA, Canais de Na+/Ca++

Opção para crises generalizadas e focais.

Risco de hepatotoxicidade e efeitos teratogênicos.

Levetiracetam (LEV)

Modulador SV2A

Uso geral em crises focais.

Risco de exacerbação de irritabilidade e problemas comportamentais (frequente em CET).

Lamotrigina (LTG)

Bloqueador de Canal Na+

Crises focais e generalizadas (taxa de resposta 50%3 em 79%).

Risco de reações cutâneas graves (SJS/TEN).


4. Novas Moléculas e Abordagens Não-Farmacológicas


A. Alvos Emergentes

  • TRPV1 Channel: Este receptor está envolvido na patofisiologia da epilepsia, regulando a neuroinflamação, a excitabilidade neuronal e a integridade da barreira hematoencefálica (BBB). Compostos como o CBD e CBDV são moduladores desse canal, indicando que o TRPV1 é um potencial alvo molecular para o desenvolvimento de novos ASMs.

  • Ganaxolona: Neuroesteroide modulador do receptor $GABA_A$. Em ensaios de fase 2 para epilepsia refratária em CET, a redução mediana na frequência de crises foi de 16,6% (com 30,4% de taxa de resposta $\ge50\%$). Ensaios de fase 3 estão em andamento.

  • Basimglurant: Modulador Alostérico Negativo (NAM) do receptor de glutamato metabotrópico 5 (mGluR5). Atualmente em ensaio de fase 2B para crises não controladas em CET.


B. Intervenções Não-Farmacológicas

  • Dieta Cetogênica (KD): Dieta de baixo carboidrato/alto teor de gordura. Pode reduzir a frequência de crises (reduções relatadas de 25,5% a 51,0%) e melhorar a função cognitiva em pacientes com CET.

  • Cirurgia: Tratamento curativo para pacientes refratários.

    • Técnicas: Ressectiva (para tubérculos corticais e SEGAs - Astrócitomas Subependimários de Células Gigantes), Calosotomia, Estimulação do Nervo Vago (VNS) e Neuroestimulação Responsiva (RNS) para crises focais.

    • Resultados: A cirurgia ressectiva pode alcançar a liberdade de crises em 48% a 65% dos pacientes em 1 ano de seguimento.

    • LITT (Terapia Térmica Intersticial a Laser): Abordagem minimamente invasiva para epilepsia focal resistente a medicamentos, utilizada para ablação de tubérculos corticais.


Conclusões por Substância / Princípio Ativo

Substância/Princípio Ativo

Mecanismo Principal

Dose / Contexto Clínico (se aplicável)

Resultados Chave

Everolimus

Inibidor de mTORC1

9–15 ng/mL (exposição alta)

Eficácia comprovada em crises refratárias em CET (50% redução em 40%). Potencial modificador da doença.

Canabidiol (CBD)

Multi-alvo (TRPV1, GPR55, etc.)

25 mg/kg/dia ou 50 mg/kg/dia (Adjuvante)

Eficácia comprovada em crises associadas ao CET (50% redução em 33%–40%). Cuidado com interações VPA (transaminases) e CLB (sedação via inibição CYP2C19).

Delta-9 THC

Agonista CB_1

Formulações focadas em THC (Extrato de planta inteira)

Potencial pró-convulsivante (uso agudo). Potencial benefício em DRE pediátrica que falha o CBD (Série de Casos) – hipótese do "Efeito Entourage".

Vigabatrina (VGB)

Inibidor da GABA-T

Primeira Linha para Espasmos Infantis em CET

Alta eficácia em SI, mas risco de toxicidade retiniana permanente.

Beta-Cariofileno (BCP)

Agonista Seletivo CB_2R; Agonista PPAR-alpha

100 mg/kg (Pré-clínico)

Efeito anticonvulsivante/neuroprotetor pré-clínico. Efeito sinérgico com Pregabalina (40mg/kg no modelo).

Palmitoylethanolamide (PEA)

Agonista PPAR-alpha; Endocanabinoide-like

Pré-clínico (Revisão Sistemática)

Forte potencial antiepiléptico/neuroprotetor pré-clínico (redução de excitabilidade e neuroinflamação).

Canabidivarina (CBDV)

Modulação de TRPV1

1600 mg/dia (Crises Focais, Fase 2)

Não atingiu o desfecho primário de eficácia em crises focais.

Ganaxolona

Modulador GABA_A (Neuroesteroide)

Variável (Fase 2 em CET)

Redução mediana de 16,6% na frequência de crises no CET. Em desenvolvimento (Fase 3 em andamento).



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