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Cannabis Medicinal na Neuropatia Diabética: Uma Revisão de Literatura Científica

  • Foto do escritor: Dr. Luís Cláudio Azevedo
    Dr. Luís Cláudio Azevedo
  • 18 de dez. de 2025
  • 4 min de leitura

Este artigo apresenta uma revisão sistemática abrangente baseada em evidências clínicas recentes sobre o uso da cannabis medicinal e substâncias relacionadas no tratamento da neuropatia periférica diabética (NPD), uma condição que afeta milhões de indivíduos mundialmente e cuja prevalência varia de 20% a 78,8% entre pacientes com diabetes tipo 2.


1. Introdução e Contexto Clínico


A neuropatia periférica diabética é a complicação neurológica mais comum do diabetes mellitus, caracterizada por dor persistente, perda sensorial progressiva e elevado risco de ulcerações nos pés. Os tratamentos de primeira linha atuais, que incluem anti-inflamatórios não esteroides, gabapentinoides, antidepressivos tricíclicos e opioides, apresentam eficácia limitada; estima-se que apenas um terço dos pacientes experimente uma redução de 50% na dor com o uso exclusivo desses fármacos. Além disso, os efeitos colaterais severos e o potencial de dependência dos opioides impulsionam a busca por alternativas naturais e seguras, como os canabinoides.


2. Mecanismos de Ação Celulares e Moleculares


2.1. As Vias Principais

A eficácia dos canabinoides no manejo da dor neuropática fundamenta-se na modulação do sistema endocanabinoide (SEC), um regulador crítico do processamento nociceptivo.

Interação com Receptores e Vias de Sinalização

  • Receptores CB1 e CB2: O Tetrahidrocanabinol (THC) possui alta afinidade por ambos os receptores. A ativação de CB1 no sistema nervoso atenua a transmissão de sinais de dor, enquanto o estímulo de CB2 exerce propriedades anti-inflamatórias e neuroprotetoras.

  • Alvos do CBD: O canabidiol (CBD) atua bloqueando a ativação de receptores NMDAR e inibindo a fosforilação da p38-MAPK, uma via essencial no desenvolvimento da dor neuropática. Ele também exerce analgesia ao ligar-se aos receptores de serotonina 5-HT1A na medula espinhal.

  • Neuroimagem e Conectividade: O THC reduz a conectividade funcional entre o córtex cingulado anterior (ACC) e o córtex somatossensorial. Uma vez que o aumento da conectividade no ACC está associado a estados de dor, essa modulação cerebral valida a redução subjetiva da dor relatada pelos pacientes.


2.2. A Palmitoiletanolamida (PEA) e o Efeito Entourage

A PEA, embora não seja um canabinoide clássico, atua como um ligante endógeno que potencializa os efeitos dos endocanabinoides (como a anandamida). Ela inibe a liberação de mediadores pró-inflamatórios, como o fator de necrose tumoral alfa (TNF-alpha) e a interleucina-6 (IL-6), protegendo a integridade da bainha de mielina dos nervos.


3. Formulações, Dosagens e Vias de Administração

Os estudos analisados empregaram diversas metodologias para otimizar a entrega dos compostos:

Substância

Via de Administração

Doses Analisadas

THC (Aerossolizado)

Inalação (Vaporizador)

Doses de 4 mg, 16 mg ou 28 mg (concentrações de 1%, 4% e 7%).

THC:CBD:CBN (Óleo)

Transdérmica

Escalonada por dor: Leve (1-2 gotas), Moderada (3-4 gotas), Grave (5-6 gotas). Concentração por gota: 3,20 mg THC; 0,32 mg CBD; 0,65 mg CBN.

CBD (Hidrossolúvel)

Comprimido Sublingual

20 mg tomados três vezes ao dia (TID), totalizando 60 mg/dia.

CBD (Tópico)

Creme

250 mg de CBD por recipiente de 3 fl. oz, aplicado 4 vezes ao dia por 4 semanas.

PEA (Levagen+)

Cápsula Oral

600 mg por dia (300 mg duas vezes ao dia) por 8 semanas.


4. Resultados Clínicos e Eficácia


4.1. Alívio da Dor e a Janela Terapêutica:

Os canabinoides demonstraram alívio significativo da dor em comparação ao placebo (33% vs 15%). Um achado fundamental revelou uma curva em forma de "U" para o THC plasmático:

  • Janela Ideal: A redução máxima da dor ocorre entre níveis plasmáticos de 16ng/mL e 31ng/mL.

  • Efeito Paradoxal: Níveis acima de 31ng/mL$ resultaram em um aumento da percepção da dor e possíveis efeitos aversivos.


4.2. Resultados Específicos por Formulação:

  • Transdérmica: No estudo de 12 semanas, a pontuação de dor total (NPSI-T) caiu drasticamente de 25,60 para 5,57 no grupo de tratamento, enquanto o grupo placebo permaneceu estável em 22,85.

  • Sublingual: Pacientes com dor nos pés tiveram redução de aproximadamente 50% nas pontuações de dor em 28 dias.

  • PEA: Demonstrou eficácia progressiva a partir da segunda semana, reduzindo significativamente a dor em diferentes nervos sensoriais e diminuindo a interferência da dor nas atividades diárias.


4.3. Benefícios Secundários e Qualidade de Vida

  • Sono e Humor: Houve melhoras clinicamente importantes na qualidade e adequação do sono (medidas pela escala MOS e PSQI) e reduções nos níveis de ansiedade e depressão.

  • Marcadores Inflamatórios: O tratamento com PEA reduziu significativamente os níveis circulantes de IL-6 e proteína C-reativa (PCR).


5. Segurança e Tolerabilidade


A cannabis medicinal apresentou um perfil de segurança favorável:


  • Eventos Adversos: Apenas 10% dos participantes relataram reações adversas leves, como urticária transitória ou dor cutânea local, taxas comparáveis ao grupo placebo.

  • Função Cognitiva: O THC inalado teve um efeito negativo menor e linear em apenas um de três testes cognitivos (PASAT), sugerindo que a redução da dor pode ocorrer com efeitos cognitivos mínimos, em doses controladas, especificamente no foco e atenção e tão somente durante o efeito agudo do canabinoide.


  1. Conclusão


Esta revisão demonstra que formulações de cannabis medicinal (especialmente transdérmicas e sublinguais) e a PEA são alternativas eficazes e seguras para o manejo da neuropatia diabética. A capacidade desses compostos de fornecer analgesia com efeitos colaterais mínimos, enquanto melhoram o sono e reduzem a inflamação, representa um avanço potencial para a qualidade de vida dos pacientes diabéticos.


Bibliografia


  1. Reechaye D, et al. (2024). Cannabinoids as a Natural Alternative for the Management of Neuropathic Pain: A Systematic Review of Randomized Placebo-Controlled Trials. Cureus.

  2. Wallace MS, et al. (2020). A Secondary Analysis from a Randomized Trial on the Effect of Plasma Tetrahydrocannabinol Levels on Pain Reduction in Painful Diabetic Peripheral Neuropathy. The Journal of Pain.

  3. Pickering E, et al. (2022). A randomized controlled trial assessing the safety and efficacy of palmitoylethanolamide for treating diabetic-related peripheral neuropathic pain. Inflammopharmacology.

  4. Seevathee K, et al. (2025). Efficacy and Safety of Transdermal Medical Cannabis (THC:CBD:CBN formula) to Treat Painful Diabetic Peripheral Neuropathy of Lower Extremities. Medical Cannabis and Cannabinoids.

  5. Zhang J, et al. (2023). The pharmacology and therapeutic role of cannabidiol in diabetes. Exploration.

  6. Kimless D, et al. (2021). Cannabidiol (CBD) For the Treatment of Painful Diabetic Peripheral Neuropathy of the Feet: A Placebo-Controlled, Double-Blind, Randomized Trial. Journal of Diabetes & Metabolism.



Sobre o autor: 

Dr. Luís Cláudio de Azevedo Silva é Médico pela Escola Paulista de Medicina – (EPM/UNIFESP), especialista em Medicina Preventiva pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de SP (HC-FMUSP), com Pós-graduação em Psiquiatria pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo (FCMSCSP) e Certificação Internacional em Medicina Endocanabinóide pela WeCann Academy.

 
 
 

1 comentário


neide.bugada
20 de dez. de 2025

Gostaria de saber onde vende ?

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