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Modulação do Sistema Endocanabinoide no Tratamento de Transtornos de Ansiedade, Estresse e Trauma: Uma Revisão Integrativa da Literatura

  • Foto do escritor: Dr. Luís Cláudio Azevedo
    Dr. Luís Cláudio Azevedo
  • 19 de nov. de 2025
  • 5 min de leitura


Resumo


O uso de canabinóides e moduladores do sistema endocanabinoide (SEC) para transtornos psiquiátricos tem crescido exponencialmente. Esta revisão analisa a eficácia, segurança e dosagem do Canabidiol (CBD), Tetrahidrocanabinol (THC), Canabigerol (CBG) e extratos botânicos alternativos em quadros de ansiedade generalizada (TAG), fobia social (TAS), e transtorno de estresse pós-traumático (TEPT). A literatura aponta para uma eficácia robusta na redução de sintomas agudos e crônicos, com uma distinção clara entre as altas doses fixas usadas em pesquisas experimentais e as doses baixas e tituladas eficazes na prática clínica de mundo real.


1. Introdução


Os transtornos de ansiedade e relacionados ao estresse representam um desafio global de saúde pública, muitas vezes refratários às farmacoterapias convencionais. O Sistema Endocanabinoide (SEC), que regula a homeostase emocional e a extinção do medo, emergiu como um alvo terapêutico promissor. A literatura atual (2021-2025) expandiu-se para incluir não apenas o CBD isolado, mas formulações de espectro completo (full-spectrum), combinações com THC e novos fitocanabinóides como o CBG.


2. Princípios Ativos e Mecanismos de Ação



2.1. O Canabidiol (CBD): estabilização e manutenção


O CBD é o composto não intoxicante mais estudado. Seus mecanismos incluem o agonismo de receptores 5-HT1A, a modulação de receptores vanilóides (TRPV1) e a inibição da enzima FAAH, aumentando a anandamida endógena.

  • Efeitos Cognitivos: Ao contrário do THC recreativo, formulações de CBD full-spectrum demonstraram melhorar a função executiva em pacientes ansiosos após 4 semanas de uso.

  • Neuroimagem: O CBD reduz o fluxo sanguíneo no giro para-hipocampal e aumenta no córtex cingulado posterior, correlacionando-se com a redução da ansiedade subjetiva.


2.2. Canabigerol (CBG): para quadros agudos?


Um ensaio clínico duplo-cego recente identificou o CBG (20 mg) como um ansiolítico eficaz agudo, reduzindo o estresse e melhorando a memória verbal sem causar prejuízo motor ou intoxicação, perfilando-se como uma alternativa não sedativa.


2.3. Produtos Medicinais à Base de Cannabis (CBMPs) e THC: fortes aliados em quadros mais graves e refratários


O THC possui efeitos bifásicos (ansiolítico em baixas doses, ansiogênico em altas). Em contextos clínicos controlados, especialmente para TEPT e insônia grave, o uso de THC combinado com CBD (CBMPs) mostra eficácia, embora com maior incidência de efeitos adversos gastrointestinais e sedação.


2.4. Moduladores Botânicos Não-Cannabis: alternativas...


O extrato de semente de Aframomum melegueta demonstrou eficácia ansiolítica e de melhoria do sono em humanos, atuando como inibidor da FAAH e ativador de TRPV1/CB2, validando a via endocanabinoide através de fontes botânicas alternativas.


3. Eficácia Clínica por Condição


3.1. Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) e Sintomas Inespecíficos


Uma meta-análise de 2024 confirmou um tamanho de efeito substancial do CBD na redução da ansiedade (Hedges' g = -0.92).

  • Evidência de Mundo Real: Dados do Registro de Cannabis Medicinal do Reino Unido (UK Medical Cannabis Registry) com coortes de centenas de pacientes mostram melhorias clinicamente significativas na ansiedade (GAD-7), sono (SQS) e qualidade de vida (EQ-5D-5L) sustentadas por até 12 meses.

  • Formulações: Pacientes prescritos com óleos tiveram maior probabilidade de alcançar melhoria clínica significativa em comparação com aqueles que usaram flores secas.


3.2. Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT): efetivo em casos não muito graves


O uso de canabinóides no TEPT apresenta nuances importantes:

  • Reconsolidação de Memória: Uma dose única de 300 mg de CBD reduziu a ansiedade e o prejuízo cognitivo induzidos pela rememoração do trauma. Contudo, este efeito foi observado em traumas não sexuais, mas não em traumas de natureza sexual, sugerindo resistência terapêutica em traumas mais severos ou complexos.

  • Pesadelos e Sono: O nabilone (THC sintético) e formulações contendo THC mostram eficácia na redução de pesadelos e melhoria do sono em TEPT, onde o CBD isolado pode ser menos eficaz.


3.3. Ansiedade Social (TAS)


O CBD (300-600 mg) reduz consistentemente a ansiedade em situações de falar em público. No entanto, quando usado como adjuvante à terapia de exposição (TCC), o CBD não potencializou a extinção do medo nem melhorou os resultados da terapia em comparação ao placebo.


3.4. Sono e Insônia


A insônia é uma comorbidade frequente e um dos principais motivos de uso. O uso de CBD isolado ou em combinação com THC melhora a qualidade subjetiva do sono, reduzindo a latência do sono e o número de despertares noturnos.


4. O Paradoxo da Dosagem: Pesquisa vs. Prática Clínica


A revisão da literatura evidencia uma discrepância marcante nas dosagens:

  1. Pesquisa Experimental (RCTs): Utiliza doses fixas altas, tipicamente entre 300 mg e 600 mg em dose única aguda ou diária, focando em efeitos imediatos.

  2. Prática Clínica e Estudos Observacionais: Demonstram eficácia com doses muito menores e tituladas.

    • No Reino Unido, as doses medianas eficazes de CBD foram 20 mg a 55 mg/dia.

    • Em coortes colombianas, a eficácia foi mantida com ~100 mg/dia.

    • Formulações full-spectrum parecem permitir doses menores devido ao efeito entourage.


5. O Papel da Expectativa


A expectativa do paciente (efeito placebo) desempenha um papel significativo. Estudos de neuroimagem mostram que a simples crença de estar recebendo CBD altera a conectividade cerebral em áreas de processamento do medo, sugerindo que o tratamento deve ser acompanhado de psicoeducação e reforço positivo para maximizar resultados.


6. Segurança e Efeitos Adversos


  • Perfil Geral: O CBD é bem tolerado. O THC apresenta maior risco de efeitos adversos, mas em doses medicinais controladas, os eventos graves são raros.

  • Efeitos Comuns: Boca seca (especialmente com THC e vapes), sonolência, fadiga e tontura. Em estudos observacionais, cerca de 18% a 39% dos pacientes relatam algum efeito adverso, geralmente leve a moderado.

  • Populações de Risco: O uso em adolescentes e adultos jovens deve ser cauteloso devido a evidências pré-clínicas mistas e potenciais impactos no neurodesenvolvimento. Interações medicamentosas (inibição do citocromo P450) exigem monitoramento em pacientes polimedicados.


7. Conclusão


A literatura científica suporta o uso de canabinóides, especialmente o CBD (preferencialmente em formulações full-spectrum ou nanodispersíveis) e moduladores do SEC, como ferramentas eficazes para o manejo da ansiedade, estresse e insônia. A prática clínica atual favorece o uso contínuo de doses baixas a moderadas (20-100 mg/dia), tituladas individualmente, que demonstram eficácia comparável às altas doses experimentais, com melhor perfil de custo-benefício e tolerabilidade.



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Dr. Luís Cláudio de Azevedo Silva é Médico especialista em Medicina Preventiva, com Pós-graduação em Psiquiatria e Cerificação em Medicina Endocanabinóide

 
 
 

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