O Potencial Terapêutico da Cannabis Medicinal no TEA: Uma Revisão de Literatura
- Dr. Luís Cláudio Azevedo

- 16 de nov. de 2025
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Resumo
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) representa um desafio clínico contínuo, com alta incidência de sintomas comportamentais associados, como agressividade, ansiedade e irritabilidade, muitas vezes resistentes às terapias convencionais. Esta revisão sintetiza a evidência emergente que posiciona os derivados de Cannabis, notadamente o Canabidiol (CBD) e a Canabidivarina (CBDV), além da Palmitoiletanolamida (PEA), como promissores agentes terapêuticos. A eficácia é apoiada pela compreensão crescente da disfunção do Sistema Endocanabinoide (SEC) no TEA e pela modulação do equilíbrio excitatório-inibitório (E-I) cerebral. Detalhamos os benefícios clínicos nos domínios social, comportamental e de comorbidades, explorando as formulações ricas em CBD, as dosagens e os mecanismos de ação específicos, ao lado das necessárias cautelas de segurança, especialmente quanto ao risco de psicose associado ao THC.
Palavras-chave: Canabidiol (CBD); Transtorno do Espectro Autista (TEA); Sistema Endocanabinoide (SEC); Agressividade; Ansiedade; Terpenos.
1. Introdução
A gestão dos sintomas comportamentais no TEA, como irritabilidade, agitação e agressividade, é crucial, mas complexa. As opções farmacológicas tradicionais, como os antipsicóticos, frequentemente acarretam um alto custo em efeitos adversos (EAs) (p. ex., ganho de peso, sedação e toxicidade metabólica). Esta limitação impulsionou a investigação de alternativas que exploram a neurobiologia subjacente do TEA.
O corpo crescente de evidências aponta para uma disfunção no Sistema Endocanabinoide (SEC), um sistema modulador que regula o equilíbrio neural e o comportamento social. Concentrações baixas de Anandamida (AEA), um endocanabinoide, são frequentemente observadas em crianças com TEA, sugerindo que a modulação deste sistema pode corrigir déficits comportamentais e sociais.
2. Metodologia da Revisão
A presente revisão de literatura científica baseou-se na análise de estudos clínicos e pré-clínicos sobre o uso de derivados de Cannabis e compostos relacionados no TEA, abrangendo o período recente de pesquisas e estudos clínicos (2019-2024).
2.1. Fontes de Dados e Tipos de Estudo
Foram analisados dados provenientes de:
Ensaios Clínicos Randomizados e Controlados (RCTs): Estudos essenciais para avaliar a eficácia em comparação com placebo.
Estudos Abertos (Open Label) e Prospectivos: Focados em protocolos de dosagem, tolerabilidade e eficácia em populações clínicas.
Estudos de Vida Real/Registros (UKMCR): Para avaliar a segurança e a eficácia em longo prazo em ambientes não controlados.
Estudos Pré-clínicos: Para investigar os mecanismos moleculares e neurobiológicos (p. ex., modulação do SEC, função sináptica) em modelos animais de TEA.
2.2. Parâmetros de Análise
A análise se concentrou em:
Benefícios Comportamentais e Clínicos: Medidos por escalas padronizadas (SRS, ADOS, CGI-I, GAD-7, SQS) e por relatos de cuidadores.
Mecanismos Neurobiológicos: Investigação da modulação do sistema Glutamato/GABA e da conectividade funcional (FC) no cérebro por espectroscopia de ressonância magnética (MRS).
Substâncias e Doses: Detalhamento da proporção CBD:THC, dosagens, formulações (extrato de planta inteira vs. puro) e estratégias de enriquecimento (terpenos).
Segurança e Efeitos Adversos (EAs): Comparação do perfil de EAs de canabinoides versus o de medicamentos psicotrópicos convencionais.
3. Benefícios Potenciais nos Sintomas Comportamentais
Os benefícios do tratamento com canabinoides foram observados em ensaios clínicos controlados e estudos abertos/de vida real, atingindo tanto os sintomas nucleares quanto as comorbidades.
3.1. Sintomas Centrais e Interação Social
A melhora na socialização e comunicação é um achado significativo, frequentemente o principal objetivo do tratamento.
Comunicação e Socialização: O tratamento com cannabis rica em CBD resultou em melhorias significativas, particularmente nos sintomas sociais, conforme medido por avaliações clínicas padronizadas (ADOS) e relatórios parentais (SRS).
Em um ensaio clínico randomizado (N=150), o extrato de planta inteira (CBD:THC 20:1) melhorou o escore total SRS (indicador de sintomas centrais) em 14,9 pontos em comparação com 3,6 pontos do placebo.
Outro ensaio controlado (N=60) demonstrou melhora significativa na interação social (p=0,0002).
As melhorias na comunicação social foram mais pronunciadas em participantes com sintomas iniciais mais graves.
Mecanismo de Socialização: Em modelos animais, o aumento da atividade da Anandamida (AEA) (um endocanabinoide) através da inibição da enzima FAAH reverteu completamente o déficit de comportamento social, apoiando o SEC como alvo terapêutico.
3.2. Comportamentos Disruptivos e Sofrimento Psíquico
A redução de problemas de comportamento é uma das principais razões pelas quais os pais buscam o tratamento.
Irritabilidade e Agressão: O CBD-rico é buscado para tratar irritabilidade grave e resistente ao tratamento. Em um ensaio controlado, 49% dos participantes que receberam extrato de planta inteira (CBD:THC 20:1) apresentaram melhora "muito" ou "muitíssimo" nos comportamentos disruptivos (CGI-I).
Agitação Psicomotora: Houve melhora significativa na agitação psicomotora em crianças. A melhora em autoagressão e ataques de raiva foi relatada em 67,6% dos pacientes em um estudo prospectivo.
Ansiedade e Humor: Estudos de vida real (UKMCR) e ensaios controlados relataram melhorias significativas nos sintomas de ansiedade (GAD-7) e na qualidade de vida (EQ-5D-5L). O CBD também demonstrou ser eficaz para o sofrimento psíquico e sintomas depressivos em adultos autistas de Nível 1.
3.3. Manejo de Comorbidades e Qualidade de Vida
Ansiedade e Sofrimento Psíquico: O CBD atua como ansiolítico, promovendo reduções significativas nos escores de Ansiedade Generalizada (GAD-7) em adultos. O composto AEA-like PEA (Palmitoiletanolamida) demonstrou melhorar o sofrimento psíquico, a depressão e o engajamento social em adultos autistas de Nível 1.
Sono: Foram observadas melhorias significativas na qualidade do sono (SQS) e uma tendência de melhora em parâmetros como a resistência à hora de dormir.
Qualidade de Vida (QoL): O tratamento com CBMPs resultou em melhorias significativas e sustentadas nos índices de QoL relacionados à saúde (EQ-5D-5L).
3.4. Mecanismos e Combinações Otimizadas
Enriquecimento com Terpenos: A adição de terpenos (compostos aromáticos) a óleos de CBD puro pode aumentar a eficácia, apoiando o conceito de "efeito entourage". Em um caso, o óleo de CBD enriquecido com terpenos demonstrou ser mais potente no tratamento da agressividade do que uma dose mais do que dobrada de CBD puro que se tornara insuficiente. Esta estratégia também permitiu a redução da dose de CBD em mais da metade.
CBDV e Neuromodulação: O Canabidivarina (CBDV), um canabinoide não intoxicante, demonstrou modular a conectividade funcional atípica do estriado (estrutura central para o E-I balance) e influenciar o equilíbrio de Glutamato/GABA em adultos com TEA, sugerindo um impacto direto nos circuitos neurais.
4. Formulações e Protocolos de Dosagem
A eficácia do tratamento está intimamente ligada à composição e ao regime de dosagem, que deve ser ajustado individualmente.

Substância | Composição / Proporção | Dose Típica/Máxima | Resultados Específicos em TEA |
Extrato de Planta Inteira (Full Spectrum) | CBD:THC (20:1) | Início: 1 mg/kg/dia CBD. Máximo: 10 mg/kg/dia CBD (ou 420 mg/dia) e 0,5 mg/kg/dia THC (ou 21 mg/dia) | Melhora nos sintomas sociais e comportamentos disruptivos |
CBD Enriquecido com Terpenos | CBD puro + Terpenos Ansiolíticos/Calmantes | 0,19 mg CBD/kg peso corporal/dia (Em um caso de estudo) | Redução significativa e eliminação da agressividade, com maior potência em dose reduzida |
Extrato Rico em CBD | CBD:THC (9:1) | Dose Titulada: 3 a 70 gotas/dia (Concentração 5 mg/mL) | Melhora significativa na interação social, ansiedade e agitação psicomotora |
Palmitoiletanolamida (PEA) Ultra-micronizada | NAE Endocanabinoide-like | 600 mg/dia (monoterapia em adultos) | Alívio do sofrimento psíquico, melhora da depressão e engajamento social em adultos Nível 1 |
Canabidivarina (CBDV) | Composto puro (para pesquisa de mecanismo) | 600 mg (dose única em adultos) | Modulação de circuitos neurais e conectividade funcional (FC) |
5. Segurança, Riscos e Recomendações
O perfil de segurança dos canabinoides se destaca em relação aos medicamentos tradicionais (p. ex., antipsicóticos), que frequentemente causam EAs que simulam ou exacerbam sintomas do TEA, como ansiedade e irritabilidade.
5.1. Risco de Psicose e Vulnerabilidade ao THC
A maior preocupação reside na vulnerabilidade do paciente com TEA aos efeitos pró-psicóticos do THC, devido à disfunção do SEC e a possíveis alterações epigenéticas.
Uso de THC: Embora pequenas quantidades de THC (proporções 20:1) sejam consideradas seguras em estudos, o uso de THC com alta potência (recreativo) ou a busca por produtos com alto teor de THC (CBD:THC 6:1) deve ser veementemente desencorajada, pois pode precipitar sintomas psicóticos e mania.
Interações Medicamentosas: O CBD inibe as enzimas hepáticas (CYP450), o que pode levar a um aumento da concentração e toxicidade de medicamentos de uso contínuo (antipsicóticos, antiepilépticos), exigindo monitoramento rigoroso.
5.2. Recomendações Clínicas
Dada a complexidade e a necessidade de mais evidências de Nível I (RCTs em larga escala):
Indicação Restrita do THC: O uso do THC medicinal no TEA deve ser estritamente reservado a ensaios clínicos ou a casos altamente selecionados e resistentes a tratamentos, priorizando proporções / ratios CBD : THC de 20 : 1 ou mais e sempre sob monitoramento clínico especializado.
Palmitoiletanolamida / PEA como adjuvante:
Protocolo de Dosagem: As formulações devem priorizar as altas proporções de CBD, e a dosagem deve ser titulada lentamente e individualmente, idealmente explorando o potencial de formulações otimizadas, como as enriquecidas com terpenos, para maximizar a eficácia terapêutica em doses mais baixas.
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