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O Potencial Terapêutico da Cannabis sativa nas Patologias Prostáticas: Uma Revisão de Literatura Científica, com foco em Prostatite, Hiperplasia Benigna e Câncer

  • Foto do escritor: Dr. Luís Cláudio Azevedo
    Dr. Luís Cláudio Azevedo
  • 26 de dez. de 2025
  • 5 min de leitura

Resumo

As doenças da próstata, abrangendo desde condições inflamatórias e benignas até neoplasias malignas, representam um desafio significativo para a saúde masculina global. Esta revisão examina o papel do sistema endocanabinoide (ECS) e de fitoquímicos derivados da Cannabis sativa (fitocanabinoides e terpenos) na modulação dessas patologias. As evidências pré-clínicas e clínicas indicam que compostos como o Canabidiol (CBD) e o Geraniol exercem efeitos anti-inflamatórios, analgésicos e antiproliferativos potentes. Os mecanismos moleculares elucidados incluem a inibição da via TLR4NF-kappaB na prostatite, a dessensibilização de receptores de dor TRPV1 e, no contexto oncológico, a indução de estresse oxidativo, a regulação do ciclo celular via E2F8 e a supressão do eixo IDO1-Kyn-AhR para prevenção de metástases.


1. Introdução

A próstata é suscetível a três condições patológicas principais que impactam profundamente a qualidade de vida e a mortalidade masculina: a Prostatite Crônica/Síndrome de Dor Pélvica Crônica (PC/SDPC), a Hiperplasia Prostática Benigna (HPB) e o Câncer de Próstata (CaP). Enquanto a HPB e a prostatite são marcadas por sintomas do trato urinário inferior e dor pélvica, o CaP permanece como a segunda principal causa de morte por câncer em homens nos EUA.

O sistema endocanabinoide, composto pelos receptores CB1 e CB2 e seus ligantes endógenos, emergiu como um regulador homeostático crucial no tecido prostático. A expressão desses receptores encontra-se alterada em estados patológicos, sendo significativamente maior em células neoplásicas em comparação ao tecido normal, o que sugere o ECS como um alvo terapêutico promissor.


2. O Papel da Inflamação e o Manejo de Condições Benignas

A inflamação crônica é um denominador comum na patogênese tanto da HPB quanto da PC/SDPC, contribuindo para a proliferação celular e a sintomatologia dolorosa.


2.1. Mecanismos Anti-inflamatórios e Analgésicos na Prostatite

Estudos recentes elucidaram como o Canabidiol (CBD) atua na redução da inflamação prostática:

  • Modulação da Via TLR4NF-kappaB: O CBD inibe a via de sinalização do receptor Toll-like 4 (TLR4) e do fator nuclear kappa B (NF-kappaB). A inibição dessa via reduz drasticamente a expressão de citocinas pró-inflamatórias como Interleucina-6 (IL-6), Fator de Necrose Tumoral-alfa (TNF-alpha) e da enzima Ciclooxigenase-2 (COX-2), fundamentais na manutenção do processo inflamatório.

  • Ativação do Receptor CB2: O efeito anti-inflamatório é mediado parcialmente pela ativação dos receptores CB2, que regulam a resposta imune local.

  • Dessensibilização do TRPV1: Para o controle da dor crônica, o CBD atua ativando e posteriormente dessensibilizando o receptor de potencial transitório vaniloide 1 (TRPV1), um canal iônico chave na nocicepção, resultando em efeito analgésico.


2.2. Evidências Clínicas em Pacientes

Levantamentos epidemiológicos indicam que uma parcela significativa de pacientes com PC/SDPC recorre à cannabis. Cerca de 50% dos pacientes inquiridos relataram uso, com a maioria percebendo eficácia "leve a muito alta" no alívio de sintomas como dor, espasmos musculares e melhora do sono e humor.


3. Câncer de Próstata: Mecanismos Antitumorais e Prevenção de Recorrência

No contexto oncológico, canabinoides e terpenos demonstraram atividades antiproliferativas, pró-apoptóticas e anti-metastáticas através de vias complexas.


3.1. Indução de Apoptose e Estresse Oxidativo

O CBD demonstrou reduzir a viabilidade de diversas linhagens celulares de CaP (PC3, LNCaP, DU145) de maneira dose-dependente. O mecanismo central envolve:

  • Via Intrínseca Mitocondrial: O tratamento com CBD promove a ativação das caspases 3 e 7, fragmentação de DNA e aumento da expressão de genes pró-apoptóticos como Bax.

  • Geração de ROS: O CBD induz um aumento massivo na produção de Espécies Reativas de Oxigênio (ROS) e depleção de glutationa reduzida (GSH), levando ao colapso do potencial de membrana mitocondrial e redução dos níveis de ATP celular, culminando na morte celular.


3.2. Parada do Ciclo Celular e Alvos Moleculares

Diferentes compostos atuam em fases distintas do ciclo celular:

  • Agonistas Sintéticos (WIN-55,212-2): Induzem parada na fase G0/G1 através da regulação de proteínas como p27 e pRb.

  • Geraniol (Terpeno): Este monoterpeno suprime o crescimento do CaP induzindo parada na fase G2/M. O mecanismo envolve a regulação negativa do fator de transcrição E2F8, cuja superexpressão está clinicamente associada a metástases e pior prognóstico em pacientes com CaP.


3.3. Modulação do Eixo IDO1-Kyn-AhR e Prevenção de Metástases

Uma descoberta recente e promissora é a capacidade do CBD de modular o catabolismo do triptofano, essencial para a progressão do câncer de próstata resistente à castração (mCRPC).

  • Mecanismo: O CBD inibe a expressão da enzima Indoleamina 2,3-dioxigenase 1 (IDO1) e do Receptor de Hidrocarboneto de Aryl (AhR). A inibição da IDO1 reduz os níveis sistêmicos de Quinurenina (Kyn), um metabólito que promove imunossupressão e tumorigênese.

  • Resultados In Vivo: Em modelos animais, o tratamento oral com CBD suprimiu a progressão tumoral e preveniu significativamente a recorrência locorregional e metástases à distância (pulmão, fígado, ossos) após a ressecção cirúrgica do tumor primário.


3.4. Efeitos Antiandrogênicos

A estimulação de receptores canabinoides promove a redução da expressão do Receptor de Andrógeno (AR) e diminui a secreção do Antígeno Prostático Específico (PSA), sugerindo um potencial uso no controle de tumores andrógeno-dependentes.


4. Perspectiva do Paciente e Uso Clínico

Apesar da robustez dos dados pré-clínicos, a translação para a clínica ainda é incipiente. Inquéritos mostram que muitos pacientes com câncer geniturinário utilizam cannabis para manejo de sintomas (ansiedade, sono, dor), e uma parcela acredita em seus efeitos antitumorais, muitas vezes baseando-se em fontes não médicas. Contudo, há uma falta de consenso e diretrizes clínicas claras, e o uso de cannabis é frequentemente realizado sem supervisão médica adequada.


5. Conclusão

A Cannabis sativa oferece um arsenal terapêutico promissor para as patologias da próstata. Para condições benignas, os canabinoides atuam combatendo a inflamação e a dor crônica. No câncer de próstata, compostos como CBD e Geraniol demonstram potente atividade antitumoral via indução de estresse oxidativo, parada do ciclo celular e bloqueio de vias metabólicas críticas para a metástase (como o eixo IDO1). Embora os resultados pré-clínicos sejam encorajadores, especialmente para a prevenção de recorrências e manejo de casos resistentes, a realização de ensaios clínicos randomizados é imperativa para validar a segurança e eficácia destas terapias em humanos.


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 Sobre o autor: Dr. Luís Cláudio de Azevedo Silva é Médico pela Escola Paulista de Medicina – (EPM/UNIFESP), especialista em Medicina Preventiva pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de SP (HC-FMUSP), com Pós-graduação em Psiquiatria pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo (FCMSCSP) e Certificação Internacional em Medicina Endocanabinóide pela WeCann Academy.

 
 
 

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